Uma noite e o encontro com Gabi Etinger e Terrence Malick

18:03

Foto: Arquivo Sociedade Semear
Antes de tudo me perdoem. Fui advertida sobre a objetividade que deveria moldar os textos, mas não este. Na noite de 23 de maio não pude evitar o encontro às cegas entre a tela da exposição e do filme. No primeiro a abertura de “O Amor em Retalhos”, da artista visual Gabi Etinger, já no segundo o Amor Pleno (To the Wonder), do diretor Terrence Malick. Como na canção, “ando tão à flor da pele” que hoje o sentimentalismo será permitido nessas palavras.

Relicário_Uma noite e o encontro com Gabi Etinger e Terrence Malick
Gabi Etinger
Foto: Arquivo Sociedade Semear
As “Tramas”, primeira exposição individual da artista sergipana, estenderam-se pelo projeto Caju na Rua até sua quarta mostra também individual. O coração protagonista em 2006 e 2012 retorna pelas fendas do estêncil para revestir com retalhos e com amor as paredes da Galeria Jenner Augusto. Na noite de abertura o vazio de uma esquina no centro da cidade de Aracaju, onde estão galeria e O Amor em Retalhos, é preenchido pelas pessoas que chegam aos poucos, em pares e sozinhos. Aglomeram-se como podem no corredor branco que conduz à entrada. Falam baixo e não se olham. Às 19:30 já conseguimos ouvir ao fundo os corações expostos na sala 2.

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Abertura de "O Amor em Retalhos"
Foto: Arquivo Sociedade Semear
A neutralidade do ambiente externo dá lugar a um vórtice de sensações induzido pelo vermelho, mas também preto e branco, que reveste toda a saleta. Nela nos esperam Ansiedade, Cumplicidade, Decepção, Desejo, Êxtase e Intimidade. De lá levaremos mais que seis delas. Os corações em uma das paredes aceleram e se misturam na projeção e naquele que a observa. O nosso e os que estão em exposição se confundem na cadência de cada obra. Quando saímos comprometemos a apatia do corredor branco. As falas e olhares antes contidos agora explodem em vermelho, pulsam nos corações dos que quase choraram, arrepiaram-se, dos eufóricos e até mesmo dos egoístas.

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Amor Pleno (To the Wonder)
Foto: Divulgação
Sem sangue latino o amor de Malick no seu sexto longa-metragem é pleno, mas também é silencioso, perturbado apenas por sussurros de pensamentos ou narração sem fôlego. No filme a história do casal de namorados protagonista, vividos por Ben Affleck e Olga Kurylenko, começa em um continente e migra para outro, onde permanece durante o segundo ato. Ela, europeia, muda-se para o dele, americano. A mudança não se restringe ao local e alcança também a relação com o passar do tempo no filme – e como na realidade. Estão presentes também uma amiga de infância, Rachel McAdams, e a figura de um padre, Javier Bardem.

O amor em To the Wonder é pacífico até nos conflitos, que nas relações por vezes conduzem ao nada, ao fim e, assim, de volta ao silêncio, este da paralisação na tristeza. O silêncio é mais no enredo, conta que pode ser da cumplicidade, do desejo, do êxtase, da raiva, da decepção e da solidão. A ausência do som não implica em falta de diálogo, mas, sim, na personificação do íntimo. O diretor priva – ou polpa - o espectador de discursos vazios para guiar a atenção até a voz dos gestos e, assim como na sala 2 da galeria, até os sentimentos que começam com o olhar.


A exposição O Amor em Retalhos está aberta à visitação de 24/05/13 a 24/06/13, nos horários de 10h às 12h e de 15h às 18h, na sala 02 da Galeria Jenner Augusto na Sociedade Semear, localizada no bairro São José, rua Vila Cristina, 148.

Amor Pleno (To the wonder) estreou em 12 de abril de 2013 nas salas de cinema afora. No Brasil a estreia acontece em 26 de julho. 

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