[Resenha]: No meu peito não cabem pássaros (Nuno Camarneiro)

16:43

Título: No Meu Peito não cabem pássaros

Autor: Nuno Camarneiro

Editora: Leya

Edição: 1a

Páginas: 192

Nota: 5 de 5

Sinopse: Que linhas unem um imigrante que lava vidros num dos primeiros arranha-céus de Nova York a um rapaz misantropo que chega à Lisboa num navio e a uma criança que inventa coisas que depois acontecem? Muitas. Entre elas, as linhas que atravessam os livros. Em 1910, a passagem de dois cometas pela Terra semeou uma onda de pânico. Em todo o mundo, pessoas enlouqueceram, suicidaram-se, crucificaram-se, ou simplesmente aguardaram, caladas e vencidas, aquilo que acreditavam ser o fim do mundo. Nos dias em que o céu pegou fogo, estavam vivos os protagonistas deste romance - três homens demasiado sensíveis e inteligentes para poderem viver uma vida normal, com mais dentro de si do que podiam carregar. Apesar de separados por milhares de quilômetros, as suas vidas revelam curiosas afinidades e estão marcadas, de forma decisiva, pelo ambiente em que cresceram e pelos lugares, nem sempre reais, onde se fizeram homens. Mas, enquanto os seus contemporâneos se deixaram atravessar pela visão trágica dos cometas, estes foram tocados pelo gênio e condenados, por isso, a transformar o mundo. Cem anos depois, ainda não esquecemos nenhum deles. Escrito numa linguagem bela e poderosa, que é a melhor homenagem que se pode fazer à literatura, o livro é um romance de estreia invulgar e fulgurante sobre as circunstâncias, quase sempre dramáticas, que influenciam o nascimento de um autor e a construção das suas personagens. 







Comentários



“Se eu quisesse juntava-me a ti e seria mar também. Mas não quero, ainda não. Tenho os meus deuses pra inventar e acredito ainda em cores que não são tuas.” 
Página 16



Meu interesse pela obra pautada surgiu através do título – acho que já devo ter mencionado aqui no blog que tenho certo encantamento por alguns títulos e mesmo sem saber nada sobre livro resolvo conhecer a obra, e com ‘No meu peito não cabem pássaros’ não foi diferente. A obra de estreia do Nuno Camarneiro constrói-se a partir das brechas das biografias de Fernando Pessoa, Borges e Kafka (através de um de seus personagens).



O livro apresenta as três histórias de formas paralelas por meio de capítulos curtos – no máximo duas páginas – tendo como ponto em comum a queda de um cometa. Os capítulos são sinalizados pelas cidades em que os personagens se encontram (Lisboa, Nova York e Buenos Aires) e apesar de curtos são extremamente ricos e densos.


Em Lisboa conhecemos Fernando – personagem baseado em Fernando Pessoa e confesso que foi o único que consegui decifrar sem o auxílio de uma pesquisa posterior – um jovem que acabara de perder a irmã e vai para Lisboa morar com uma tia. Seus dias na nova vida são permeados por uma enfermidade que dentre outras consequências, permitiu que o personagem se descobrisse como poeta. A delicadeza e a densidade de Nuno são emprestadas as cartas e escritos do personagem.

Em Nova York somos apresentados a Karl, imigrante, que devido a dificuldades financeiras se submete a quase todo tipo de trabalho – desde limpador de vidros a vendedor de Bíblias. Através desde personagem, somo levados para uma Nova York solitária, expressa pelos conflitos de Karl com os trabalhos e ausência de amigos e relações pessoais.

Jorge – inspirado em Jorge Luís Borges – nos é apresentado em Buenos Aires ainda criança. O destaque do personagem está na imaginação fértil e na relação com os familiares. Por meio de suas invenções acompanhamos o universo simbólico e os significados criados pelo personagem.

Dos três personagens tive maior identificação com Fernando, talvez pela proximidade que tenho com a obra de Fernando Pessoa. No entanto, a profundidade das descrições de Nuno nos permite adentrar os mundos particulares de cada um dos autores que ele pretendeu homenagear. ‘No meu peito não cabem pássaros’ é pura poesia em forma de prosa. É um livro de estreia primoroso que deve ser lido por todos aqueles que gostam de literatura e por que tem alguma familiaridade com os autores homenageados.


“Pode um homem voltar pela exata razão por que partiu. Pode o prelúdio ser coda de uma história mal contada. Pode a vida começar de um lado e ir para outro igual, numa simetria de plano invisível desenhado por mão nenhuma. De um porto parte-se e torna-se, de outro chega-se e parte-se, apenas o mar vê sempre o mesmo, homens a ir. Homens que vão de um lugar para outro para verem de que absurdo se faz o mundo todo, homens que caminham tanto para saberem tão pouco.” 
Página 176


Érika Rodrigues

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3 comentários

  1. Esse livro realmente parece lindo e só de falar em Kafka já me deixou emplogada.
    Bela resenha. ^^

    http://amolivrosdeverdade.blogspot.com.br/

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  2. Jorge Luís Borges *-* que maravilha é ver nomes importantes da literatura sendo, de certo modo, homenageados. De fato o título do livro chama demais a atenção, assim como seus demais elementos. Ótimos comentários, Érika.

    Um abraço!
    http://universoliterario.blogspot.com.br

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  3. Fernando Pessoa *-*
    Achei o título interessante também, e a sua resenha só dá vontade de correr para lê-lo!

    Ana P.M. ♛ Queen Reader - Venha conhecer o Castelo!
    http://booksandcrowns.blogspot.com.br/

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