[Entre Aspas]: Sobre o IPEA, as mulheres e os abusos

15:56



Quem acompanhou os noticiários do último mês pôde ter uma ideia geral de toda polêmica causada em função dos dados da pesquisa do IPEA que revelou a opinião do brasileiro sobre a violência contra as mulheres. Independentemente de toda a confusão com relação às porcentagens, resolvemos propor um debate sobre o que tal pesquisa e as repercussões que a sucederam de fato revelam sobre o nosso comportamento.

Como a proposta da coluna é trazer mais de uma opinião, vou abrir espaço para a Francielle Couto, do Universo Literário, comentar sobre os acontecimentos. Vamos lá?


Fran: Os resultados da pesquisa do IPEA sobre a violência contra mulher no país suscitaram recentemente uma série de acontecimentos sádicos. Primeiro, os dados apontaram que 65,1% da população crê que mulheres que usam roupas curtas merecem ser atacadas. Um número chocante se considerarmos o que de fato está sendo tratado: um ato radical e extremo que vai contra a qualquer dispositivo legal. 

Entretanto, após uma repercussão que acendeu protestos em todo o Brasil – e, como se não bastasse, ocasionou diversas ameaças contra essas manifestações –, o IPEA se pronunciou a fim de retificar os dados divulgados, afirmando que, na realidade, o percentual correto é 26%. 

Agora eu me pergunto como uma pesquisa realizada entre maio e junho do ano passado (e
Fonte: Veja
só divulgada recentemente), pôde noticiar resultados tão dessemelhantes? Afinal, não se trata de poucas percentagens. Um erro que intriga a população por diversos motivos, e que levou muitas pessoas a acreditarem que houve uma manipulação dos dados. Eu, por outro lado, vejo que, independente da numeração, o fato é que o resultado ainda choca. Não estamos falando apenas de sexo, ou de como as pessoas se comportam ou escolhem usar seus respectivos corpos. Estupro, para aqueles que esqueceram o real sentido da palavra, é sinônimo de crime. 

Parece que não importam quantas pessoas se disponham a defender as mulheres de tamanha agressão... tudo resulta no fato de que os homens têm o direito de fazer o que quiserem com o corpo delas. Em outras palavras, para muita gente ainda são elas as principais culpadas pela violência recorrente que nunca parece ter fim. 

Todavia, grave é acreditar que as próprias mulheres são as responsáveis pelo cultivo da cultura do estupro. Não existe responsabilidade parcial quando elas não passam de vítimas silenciadas pela vergonha e pelo medo. Medo este que infelizmente contribui para uma sociedade preconceituosa e repleta de desigualdades. 

Talvez a pesquisa do IPEA até apresente erros de elaboração – como se tem debatido na mídia –, mas, no fim, ela apenas mostrou um deprimente retrato social, composto por pessoas de pensamento machista e alienadas por ideias que motivem a repressão (me refiro também à repercussão dos dados). Caso contrário elas não teriam concordado com um conceito pobre, que em nada justifica esse tipo de violência. 

A verdade é que nenhuma minissaia, ou uma blusa mais curta ou decotada, nada disso explica os atos de agressão que tentam ser abonados de uma maneira tão incrédula. Senão, crianças, adolescentes e até idosos não seriam abusados. Senão, em países como os do Oriente Médio, por exemplo, onde as mulheres devem estar cobertas dos pés à cabeça – por uma questão cultural e religiosa –, não seriam violentadas da mesma forma. 

Não sejamos ingênuos... estamos lidando com um problema de ordem mundial. Por isso, lamento o resultado da pesquisa em suas diversas extensões. Infelizmente vejo que ainda estamos em um mundo onde as pessoas possuem uma mentalidade atrasada, que pregam a subordinação feminina. 

Temos o livre arbítrio de pensamento e opinião, e se elas não podem ser expostas e debatidas, qual a finalidade, então? Só peço que, homens e mulheres, por favor, encarem o estupro como um crime hediondo, porque é isso o que ele é: uma selvageria que agride a mulher física e emocionalmente; que deixa marcas para a vida inteira. Não fechem os olhos para uma realidade que merece reconhecimento, denúncia e, sobretudo, punição.


Érika: De acordo com o jornal O Povo, dados das Organizações das Nações Unidas revelam que mais de 70% das mulheres em todo o mundo sofrem violência de gênero e que uma em cada cinco mulheres seja vitima de estupro. Tentei procurar dados que expusessem a realidade brasileira, mas tudo com relação ao tema é muito impreciso. E falando especificamente em crime sexual acredito que as estatísticas são subestimadas.

Depois de tudo que foi dito a respeito do tema e de todas as tentativas de “justificar” a possível inclinação dos brasileiros (e brasileiras) de responsabilizar a vítima pelos abusos sofridos fica evidente que viveríamos em um país justo e seguro se não fossem as vítimas. Concluo afirmando que não são as trapalhadas do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada que devem nos envergonhar. O que nos envergonha e deveria causar repulsa é a tolerância social frente à violência. 

Não sou feminista. Não queimo sutiãs. Não participo da Marcha das Vadias. Sou apenas mulher. E, portanto, antes de me aconselhar com frases como “se dê ao respeito”, seria interessante que um pouco de respeito me fosse ofertado.





A coluna Entre Aspas tem o objetivo de proporcionar ao leitor mais de um ponto de vista sobre temas atuais. E como alguns temas polêmicos podem ganhar espaço aqui sempre teremos um ou mais convidados para enriquecer as discussões que podem (e devem) continuar nos comentários


Também poderá gostar

1 comentários

  1. Eu me intitulo feminista apesar de não está em nenhuma frente feminista, e bom, acho que para defender o direito de toda mulher de vestir o que quer, de andar como quer de sair a hora que quiser ninguém tem que se dizer feminista como eu, mas acho que todas e todos que defendem esses direitos são feministas.

    Nossa sociedade é falocêntrica e isso ao passar do tempo tirou da mulher a liberdade de ser e quer, somos o querem de nós, nossos corpos não podemos nos pertencer, mas nós estamos acordando para essa barbárie a qual somos submetidas, subjugadas.

    Temos o direito de nos vestir como bem entender e não somos nós que temos que nos dar o respeito, mas é cada ser humano que deve nos respeitar pelo que somos, por nossa liberdade de ser e fazer.

    http://amolivrosdeverdade.blogspot.com.br/

    ResponderExcluir

.

Licença Creative Commons
Este obra está licenciado com uma Licença Creative Commons Atribuição-SemDerivações-SemDerivados 2.5 Brasil.